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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Olhos





Vi teu olhar... Desinteressado talvez, mas que eclodiu em mim, um vulcão de sentimentos adormecidos, pelo tempo e pelo cansaço. Um olhar apenas, no entanto, avivou aquilo que nego despertar. Olhos castanhos, que acenderam a chama, que um dia me fizeram emergir de mim mesma. Não há como negar, seu olhar ainda, somente ele, atordoa, alicia, perturba... Sim, percebi seu olhar e desorientei-me em angustiadas lembranças. Neste curso, encontrei uma saudade incessante e perdi meu chão, ousei gritar, entretanto, fracassei, vencida pelas recordações afloradas. Precisei de ar, do seu ar... Caminhei vagarosamente até a sala e abri as janelas, senti um vento impetuoso adentrar no ambiente, abracei-me e neste ápice, seus olhos, mais uma vez, alcançaram os meus. Olhos poderosos, que desconhecem a força, que até hoje, exercem sobre esta mulher. O poder de uma águia, que me envolve e que em livre vôo lança-se no infinito, solto e cativo unicamente pelos meus olhos, que silenciosos os seguem atentos. Baixei a cabeça lentamente, a fim de desviar a atenção do pássaro, suspirei resignada e perdida em devaneios, fechei as  minhas janelas para não mais o olhar.


Somaia Gonzaga


sábado, 2 de janeiro de 2016

Você...




Doce inventor,
Caro companheiro,
Delicado incógnito,
Gentil amado,
Terno despercebido,
Meigo amante,
Cortês mestre,
Solitário pedinte...

Premiou o amor!
É um desejo
Sempre presente.

Miragem
Que nunca some

E a inspiração
Que sempre surge!


Joyce Gomes




segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A um ausente



Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade







domingo, 1 de novembro de 2015

Do sorriso da ela morena



Do sorriso da bela morena,
Eu guardei o pedaço do canto,
Perto dele pareço pequena,
Faço dele então meu recanto.

Um pedaço me parece tanto!
Quando junto à face serena.
Do sorriso da bela morena,
Eu guardei o pedaço do canto.

Dos apegos da fala amena,
Ao sublime timbre do canto.
E nos leva a navegar.. Querena ...
Pelas águas de doce encanto!
Do sorriso da bela morena.



Rejane Alves



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Tempo de Estio


Hoje, lembrei-me do inverno que assolou os meus dias, de um céu cinza que desaguava continuamente e que transbordava os rios das emoções. Recordei das noites insones de frio, dos medos, das angústias infindas e os trovões que ecoavam no silêncio das madrugadas. Revivi os percursos trilhados e a lama que punia os meus passos, numa estrada íngreme e cansativa. Foi um tempo em que não havia frutos, nem flores, nem pássaros. E em mim, persistia apenas um intenso desejo de que o sol voltasse a brilhar. E foi com o canto de um pássaro solitário que o sol ensaiou seus primeiros raios. Meu caminho, vestindo-se de flores, secou. A natureza finalmente se espreguiça e renasce, deixando as madrugadas frias na lembrança... 
O ontem se faz presente e voa com o tempo no estio da estação.


Somaia Marguerite Gonzaga



sábado, 10 de maio de 2014

Acróstico




Saber a tua voz dizer de mim
Ouvir-te repetidas vezes tantas;
Mesclar tanto o teu não, quanto o teu sim,
Amanhecer te ouvindo (tu me encantas...)
Ir daqui até aí (te ouvir, eu vim)
Adormecer e perdir: me lê e canta...

Antoniel Campos

domingo, 27 de abril de 2014

Perfumes - Véio China

Voz: Somaia Marguerite Gonzaga


Nos meus olhos há lágrimas. Lágrimas que olham para a porta da sala, testemunha viva das malas que há pouco exilaram junto de ti. Porém a ausência não tolhe o rastro do teu perfume favorito, teimoso, que insiste ficar como seu eu fosse a viúva duma fragrância que fere e causa dor.
Não há como negar,  me sinto a chaga do mundo, ferida que não cicatriza, a dor que persiste, mas que diz que há vida lá fora e sons como esses que, eclodindo na janela são gotas duma mesma chuva que inunda dentro de mim
Ainda parada à passagem da sala, penso, repenso, e é tanta a dor, e o que faço?
Maldito seja o que não não sai de dentro de mim! Maldito sejas tu e o teu perfume que o meu amor abomina, mas que persiste incrustado mim e ganha os quartos e corredores a cada um dos meus passos, sufocando-me, confundindo, me assassinando.
Logo, me sinto mal e não mais quero respirar o ar dum passado de poucas horas, então saio e vou à procura de algum lugar que me faça  livre do peso da  idolatria que sinto por ti.
Pela mesma porta da sala alcanço o quintal e me misturo às águas da chuva e à fúria dos raios e trovões. Sim, sei que tenho pavor do estrondo que produzem, mas, mesmo que me amedrontem não arredarei pé. Portanto deixo a chuva molhar minhas roupas, o rosto, tocar meus lábios num momento que não é bom, é agonia, é meu desespero, destempero que me lesa às frações e me ocultam descobertas relegando-me ao descaso melancólico do teu amor.
Ainda estou frágil sob os rancores duma tempestade que mal inicia e tento evitar o desalento e não consigo, já que  desencontrada de mim sinto-me distante daquilo que fui, do riso fácil e um olhar de esperança eterna.
Sem saber como agir retorno para dentro da casa, e lá inesperadamente o teu cheiro me nauseia, enoja, mas mesmo que não se faça  motivo relembro os teus olhos, e eles são lindos, mas estão tão longe agora.
E é a imagem do teu olhar vagabundo que tatua minhas certezas, pois mesmo estando próximo estiveste tão ausente que jamais notaste as causas dos sorrisos nesta mulher que te amou.
Sim, essa é a  verdade e estou tão encharcada e tonta e ando para lá e pra ca como barata intoxicada, então entro e saio de quartos, inspeciono os corredores e retorno à sala acompanhada dum choro que me pede paciência e alguma necessidade do tempo.
Não preciso de tempo! Irrito-me em lamentos de leoa ferida à merce dum último disparo. Surpresa acolho os momentos que em mim as gotas estancam e estacionam em meus lábios, mas elas me  incomodam e obrigam-me a tocá-las com a ponta da língua. E assim eu faço e lhes sinto o sabor  insosso, óbvio sinal de que tudo é passível de mutação, pois já deslizaram mais salgadas.
Aturdida dirijo-me ao banheiro e acolho uma toalha de rosto, felpuda, e com ela vou à cozinha e preparo algo, preciso me ocupar. Feito, retorno para sala com uma pequena caneca à mão e a toalha ao ombro. Mas ali alguma coisa muda, está diferente, pois não mais ouço o barulho da chuva e nem dos raios e nem recende no ar o odor do teu perfume. Penso nisso por mais alguns instantes e um riso nervoso me escapa junto de  duas lágrimas retardatárias; talvez o teu rastro, igualmente covarde se dobrou ao delicioso e estimulante aroma de coisa fresca. - Boa viagem querido! - Murmuro-te em desejo ao enxugar o solitário par de gotas na maciez das felpas.
Antes de descansar a toalha no braço do sofá olho para as chaves duma porta trancada no mesmo instante em que desponta em mim um sorriso triste, nostálgico, conformado até, mas voluntarioso ao sorver o longo gole do café ainda quente.


Véio China