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quinta-feira, 21 de abril de 2011

No apartamento...


Sozinha no apartamento entre um gole e outro de vinho, navego na net, atendo telefone, recuso convites. Opção. Ouço um bom som... O pensamento não pára... Pensamento vagueia... Acendo um cigarro e trago. Trago o peso do mundo, da solidão que não me deixa só... Mas essa mesma solidão é a escolha mais perfeita que já fiz em toda a minha vida... No apartamento,  a moça, a mulher, a menina,  entre um gole e outro de vinho sente-se branda, sossegada, tranqüila e livre em um mundo só dela...

Eu...um ser


segunda-feira, 18 de abril de 2011

A alegria




A alegria me fascina. Adoro ver a alegria estampada no rosto das pessoas. Quando caminho pelas ruas e acontece de ver alguém com um sorriso escancarado, absorvo aquilo e me sinto feliz, sigo meu caminho com um pouco daquela alegria, daquele sorriso... O mesmo acontece quando vejo alguém triste, sinto uma tristeza infinita e levo um pouco daquilo também, por este motivo não consigo achar graça em alguém que cai, ou tropeça... Mas absorvendo a alegria dos outros, não só carrego como passo o dia e a noite com aquele sentimento que me fez tão bem, que me fez suspirar... Carrego toda a alegria do mundo, vale dizer que a minha alegria é um pouco de cada alegria encontrada...

Eu, um ser


segunda-feira, 11 de abril de 2011

um domingo...




"Um domingo de tarde sozinha em casa
dobrei-me em dois para a frente
- como em dores de parto
- e vi que a menina em mim estava morrendo.
Nunca esquecerei esse domingo.
Para cicatrizar levou dias.
E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heroíca.
Sem menina dentro de mim."


(Clarice Lispector)



sexta-feira, 8 de abril de 2011

Outono


Está fazendo um dia lindo de outono. A praia estava cheia de um vento bom, de uma liberdade. E eu estava só. E naqueles momentos não precisava de ninguém. Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto. O mar estava calmo. Eu também. Mas à espreita, em suspeita. Como se essa calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto me fascina.

Clarice Lispector


Necessário como a chuva...

"Ele disse: não chore que chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva que se precisa, 
quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco."

Clarice Lispector


quinta-feira, 31 de março de 2011

“Sou tão misteriosa que não me entendo.”




“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

Clarice Lispector


sexta-feira, 25 de março de 2011

A Paixão segundo G.H. - Clarice Lispector



Eu chamava “máscara” de mentira, e não era: era a essencial máscara da solenidade. Teríamos de pôr máscaras de ritual para nos amarmos. Os escaravelhos já nascem com a máscara com que se cumprirão. Pelo pecado original, nós perdemos a nossa máscara.

Clarice Lispector




Mude...



Mude,
mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lugar da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
Procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,...

Clarice Lispector





Poema... Alma Perdida



"Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e apago, acendo e apago, acendo e apago. Só que aquilo que capto em mim tem, quando está sendo agora transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. Mais que um instante, quero o seu fluxo."


Clarice Lispector



sábado, 19 de março de 2011

Pertencer...




"Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. 

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. 
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus. 
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. 
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro. 
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos. 
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. 
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. 
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. 
Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido. 
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!"


Clarice Lispector