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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

. Clarice Lispector in De amor e amizade .


"O prazer é abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio pleno que se estava encarniçadamente prendendo. E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração e não estou prendendo nada! E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre!"




sábado, 22 de fevereiro de 2014

Selê Marinho



Experimentar o novo atrai...
Mas, usar o velho, é  que conforta!
Embora, ambos desnecessários, para quem, chega até aqui,
troteando nos cascos!



Selê





quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014







Escancarava portas e travas...
Bania demônios da teia...
Fomentava os pulsos...
Fervia o sangue nas veias...
Sentia o aroma das vontades brotando na pele...
E a ausência, em porções, saciava o desejo.
A falta que faltava, já não fazia mais falta...
Aprendia, que o mundo era um enorme celeiro vazio...
Colhia ventos sem muito espanto...
Foi preciso aprender a não precisar!
Ganhar forças pra carregar o grande vão...
E nele, sustentar as palavras que mamãe dizia...
"dorme, que a fome passa!"
É assim, que a dor adormece!


Selê







domingo, 16 de fevereiro de 2014

Do livro o Pequeno Príncipe


" Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo..."


Antoine Saint Exupéry





Antoine Saint Exupéry


"Se alguma coisa se te opõe e te fere, deixa crescer. 
É que estás a ganhar raízes e a mudar.Abençoado ferimento que te faz parir de ti próprio."


Antoine Saint Exupéry





sábado, 25 de janeiro de 2014

Livro: A Legião Estrangeira



Que foi que se disseram? 
Não se sabe. 
Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. 
Sabe-se também que sem falar eles se pediam. 
Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
Mas, ambos eram comprometidos. 
Ela com sua infância impossível. {...}
Ele com sua natureza aprisionada.
Ela ficou espantada, com acontecimento nas mãos.
Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas, ele foi mais forte que ela. 
Nenhuma só vez, olhou para trás.

Clarice Lispector








Poema melancólico a não sei que mulher



Dei-te os dias, as horas e os minutos 

Destes anos de vida que passaram; 

Nos meus versos ficaram 

Imagens que são máscaras anónimas 

Do teu rosto proibido; 

A fome insatisfeta que senti 

Era de ti, 

Fome do instinto que não foi ouvido. 



Agora retrocedo, leio os versos, 

Conto as desilusões no rol do coração, 

Recordo o pesadelo dos desejos, 

Olho o deserto humano desolado, 

E pergunto porquê, por que razão 

Nas dunas do teu peito o vento passa 

Sem tropeçar na graça 

Do mais leve sinal da minha mão… 





Miguel Torga




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Eu...



Eu sou o meu próprio espelho. E vivo de achados e perdidos. É o que me salva. Estou metida numa guerra invisível entre perigos. Quem vence? Eu sempre perco”.

. Clarice Lispector in Um Sopro de Vida .



sábado, 11 de janeiro de 2014

Eu...


Já fui Maria, Já fui Amelia... 
Já fui Dama das camélias! 
 Das outras que passaram... 
 Nos restos que sobram... 
 Sou Toda Eu! 


 Selê Marinho




sábado, 28 de dezembro de 2013

O Mundo Só se Dá para os Simples



Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo e a fome com que nasci pelo leite — esta fome quis se estender pelo mundo e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível sim — mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava. Mas fome violenta é exigente e orgulhosa. E quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os simples e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes eu fingi por orgulho que não doía eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor pelo mundo me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver — e eu pensava que esta sim, é livre. Mas como foi que transformei sem nem sentir a alegria de viver na grande luxúria de estar vivo? No entanto no começo era apenas bom e não era pecado. Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo: era uma avidez de luxúria pelo mundo. E o mundo de novo se retraiu e a isso chamei de traição. A luxúria de estar vivo me espantava na minha insónia sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme.


Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1971)'

Foto editada por euzinha!